Trezentos e sessenta e cinco sóis


Fonte: Ultradownloads

Hold Me Together by Loud Harp on Grooveshark

Pisamos em solo desconhecido. Os fogos de artifício colorem o céu, enchem os olhos e anunciam um novo período ao coração. Coração, sim. Um ano novo cheio de planos, onde os sonhos lhe bastem para acreditar sempre numa mudança. Mudança essa que precisa levar de bagagem trezentos e sessenta e cinco sóis nascentes e uma certeza.

A certeza é o passaporte da mudança, certeza de que mudanças também têm propósitos. É mais certo ainda que levamos um tempo para compreendê-los e aceitá-los, mas acabamos adeptos. Mudamos as coisas de lugar, reorganizamos papeis, apagamos palavras e reescrevemos. Precisamos provar para nós mesmos que mudamos.

Precisamos que esteja visível aos olhos. Eu concordo que precisem, mas não tanto aos olhos físicos, prefiro aos olhos da alma. Prefiro saber que mudar é aceitar suas próprias maneiras e circunstâncias, é enxergar em si algo diferente que possa ser descoberto, valorizado, moldado por suas próprias mãos e não a julgar dos externos a ti.

É um tempo onde os planos magicamente surgem escritos numa listinha. Mas que tempo é esse, que só começa e termina? Não se pode viver nos entremeios? Não existe, de fato, esse meio tempo?

E quando eu digo meio, não é pra dizer pela metade, não. É pra lembrar do preenchimento, do valor, da transformação do que é vazio. É o tempo do meio, os trezentos e sessenta e três sóis que sobram entre o primeiro e o último dia do ano que se inicia. E não, não vou dizer que estes ninguém valoriza, que todo mundo esquece. Não, não esquece. Lembra até demais.

Mas vai perdendo o encanto. Vai deixando sentir a segunda-feira pesar e a sexta aliviar o cansaço. Vai valorizando demais os finais de semana e deixando as terças, quartas e quintas pra não ver a hora de passar. Vai deixando passar, passar, passar.

Onde piora mesmo é por dentro. A gente esconde a angústia, deixa passar, passar, passar também. Esconde os problemas mal resolvidos nos bolsos, no fundo da sacola da vida. E acumula, mas passa. E chega uma hora que a gente se desespera por uma nova chance, por um novo tempo. E o enxerga nos próximos anos, como próximos ciclos. A gente corre e agarra a mão do céu colorido, das taças de champagne, do "adeus ano velho, feliz ano novo". Vê um refúgio, restabelece a paz e prontifica-se a mudar.

É meia-noite. Hora de ligar para a mudança e pedir que ela traga as bagagens. Os trezentos e sessenta e cinco sóis e a certeza de que tudo vai ser bem melhor. A entrega é rápida. Fica ali, à sua porta, janela também. Mas sabe? Você precisa ver que só é preciso mudar uma coisa para mudar tudo: ver de dentro. Cada um tem sua bagagem e precisa distribuir cada sol em algumas horas, mas ninguém pode abrir a janela e esperar por um dia radiante se não dispor sua alma a senti-lo e vivê-lo tão completamente.

Larissa Mariano

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Marcia! Muito obrigada por estar sempre aqui! É maravilhoso ter um apoio como esse! Fico muito feliz que tenha gostado do texto, de verdade!

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  2. Respostas
    1. Dé... Demorei pra responder, né? Mas muito obrigada pelo comentário e pelo carinho de sempre! Você é muito especial!

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