Metamorfose

Gentileza by Marisa Monte on Grooveshark

Hoje posso afirmar que sou jornalista. Que exerço sim uma profissão. Que me encontrei em pessoas que precisavam (e mereciam muito) ser encontradas. Acredito que nada é por acaso e, da mesma forma, sei que cheguei a essa Associação porque tinha muito a aprender com quem tanto conheceu das intempéries dessa vida. Ninguém escolhe ter um câncer de mama, mas aprende com ele. Aprende coisas que essas mulheres, da Associação Viva Melhor para Mulheres Mastectomizadas, nos ensinaram.

Foi um crescimento e um aprendizado maravilhoso - não apenas na profissão, mas também de alma - trabalhar junto a cada uma delas, escrever suas histórias e suas necessidades. Sentir gratidão e carinho como retribuição é o maior pagamento pra um jornal de faculdade, produzido por alunos que enriquecem para a vida e que, pelo menos em minha experiência, levarei comigo para toda a eternidade.

Essa crônica, esse texto é para, por e com vocês. Mesmo já publicado e já lido no jornal, esse texto é para as borboletas que me ensinaram o caminho da sinceridade, da fé e do acolhimento. Das borboletas que ensinaram nossa própria metamorfose: como profissionais e como pessoas que têm em suas vidas a dádiva de conhecer a força de uma mulher.

PS: A música é para vocês, que são a gentileza que colore este lugar cinza!

Metamorfose

     
Arte por Bianca Mauri


Isolar-se. Passar pelo estágio mais bruto de dor. Apoiar-se e esperar. As faces de quem sabe transformar-se, as fases de quem se reconhece por inteiro.

De quem sabe que a dor, tão inevitavelmente, ensina quem passa por ela disposto a reerguer-se quando chegar o momento. De quem entende que a metamorfose é necessária para que a vida venha a lhe presentear com asas.

Asas dispostas a deixar que os quatro ventos dissipem o passado, dispostas a voar com leveza e força até o bom futuro de quem soube esperar seu tempo certo. Das borboletas conscientes de seu papel e de sua história a encher de esperança as almas de quem ouve.

Borboletas. Que se abrem de um casulo para redescobrir as possibilidades de um universo mudado, que passa a ser tão particular, mas tão compreensível. Tão íntimo, mas tão ansioso por compartilhar. Que é de cada asa que o carrega, mas que se deixa espalhar a cada longo voo.

Que espera. Que alcança e supera o inesperado. Que entende a vida a seus próprios passos. Que sabe levar a leveza.

A mulher, tão borboleta em seus estágios difíceis, tão fortalecida em estar pronta a enfrentar o seu casulo, o seu momento de esperar para ver criar e abrir suas próprias asas.

Asas que, ao longo de cada tempo, puderam aprender a alçar voo de cada situação, a equilibrar-se diante do tropeço, a tentar de novo diante da queda, a ter coragem diante do desconhecido.

Mulheres que talvez não soubessem tudo o que enfrentariam em seus caminhos, mas tomaram impulso para seguir em frente. Para, principalmente, não retroceder em medo e insegurança.

Mulheres fortes o bastante para acreditar no próprio sucesso. Borboletas delicadas o suficiente para fazer o próprio coração ouvi-las determinadas a travar uma batalha nova, de direções que talvez fossem completamente diferentes.

Mulheres que se importaram em dividir seus voos de borboleta, em amparar as que eram mais novas no bater de asas. Em acolher e, sob o colorido que esvoaça, cada particularidade do ser.

Mulheres que são borboletas de alma. Que não perdem o seio em seu próprio âmago. Que exalam vontade de viver no colorir que fazem do mundo.

Mulheres que sabem que uma mama, um seio, é esteticamente recuperado com uma prótese, com um reconstruir após se retirar.

Mulheres que devem saber a beleza que deixam por onde passam. A história, a superação, a vivência. Mulheres que têm a delicadeza de ser uma verdadeira fortaleza.

Mulheres que, essencialmente, sabem que o seio mais importante é o coração que bate tomado pela ânsia da joia mais valiosa: a vida.

Larissa Mariano

Nenhum comentário:

Postar um comentário