Do(ação)

Momentos de AACD e Teleton 2009 - Arquivo Pessoal

Depende De Nós by Ivan Lins & Coro Chiquititas on Grooveshark
Há dezessete anos, eu já tinha passado pelas provas mais difíceis que tive de encarar mesmo sem saber como: lutar para continuar vivendo. Fazia já quase um ano que as coisas tinham tomado um rumo um pouco mais fácil. Encontrar a AACD – Associação de Assistência à Criança Deficiente – foi literalmente o amparo necessário para os primeiros passos rumo a conhecer essa existência.

Cheguei lá com um ano de idade, sendo tratada e atendida por excelentes profissionais. Junto deles, da família e dos amigos que tanto apoiaram, eu consegui as coisas mais simples e mais essenciais. Eu consegui sentar com um ano de idade, engatinhar aos três e dar os primeiros passos num andador aos cinco ou seis.

Mas, exatamente ao meu um ano de idade (quase dois) começou um programa que ajudava a manter aquele lugar onde eu tanto gostava de estar, onde eu precisava passar pela porta e fazer carinho na boneca que ilustrava o logo da AACD. Surgia o meu novo amigo de carinhos: o Tonzinho, mascote do Teleton.

Evolução dos logos da AACD - Mundo das Marcas
Da primeira edição, confesso, não lembro nada. Mas, para não me deixar falar, conto com a memória de minha avó, que esteve lá comigo e me acompanhou nestes tantos anos de tratamento enquanto minha mãe precisava trabalhar. O apoio de artistas ainda era pouco, quase nenhum. Mas o abraço era de um senhor que nunca se considerou celebridade e que não nasceu em berço de ouro. O abraço era de um senhor que poderia facilmente doar todo o dinheiro que era necessário.

O abraço era, porém, de um senhor que não faz questão dos carros do ano. Que não dá a seus filhos tudo o que querem sem que sintam a força de trabalhar dignamente. O abraço era de um senhor que queria conscientizar. O abraço era de um senhor cujo nome é quase este mesmo: Senor. Senor Abravanel, o Silvio Santos.

O abraço era de um homem que nunca quis levar crédito pelo que fez e nunca aceitou ser excessivamente aclamado por isso. O abraço era de um homem que aceitava a ideia de Hebe Camargo, por tantos anos a madrinha ilustre no programa, que sempre lutou pela causa de milhares de crianças deficientes, inclusive eu.

Não participei de todas as edições ali, no palco, ativamente, mas fiz parte de mais da metade com toda a certeza. Nunca conheci Silvio nem Hebe pessoalmente, embora vontade não faltasse. Conheci muitos artistas que nos apoiavam. Que vinham nos abraçar ou que passavam um programa inteiro com alguma criança no colo, como fiquei com Jackeline Petkovic, a Jacky, apresentadora do Bom Dia e Cia na época.

Aquele palco é um filtro. Ninguém que sobe ali tem preconceitos no coração. Falo isso sentindo o rosto molhado por lágrimas emocionadas. Ninguém está ali por dinheiro e ninguém, aliás, recebe algum dinheiro para por seus pés nessas vinte e quatro horas de programação completamente doadas. Cada artista, cada mãe de paciente, cada paciente, cada profissional que faz parte desse programa doa aquilo que de melhor tem.

Doa e não é a quem doer. Doa para tirar a dor, para amenizar. Doa para fazer com que uma menina como eu, que ainda tem algum descontrole no tronco e uma coordenação motora que também não é 100%, possa sentar à frente deste computador e agradecer com a alma, possa se doar por palavras. Ninguém ali chega para ofender, nem para machucar. Cada um chega para aprender, para ensinar, para participar, para aliviar.

Escrevo tudo isto para chegar ao ponto que me entristece. Uma matéria que cita este mesmo Senor Abravanel, este mesmo Silvio Santos, como uma pessoa racista. Assisti o programa inteiro, não li partes editadas. Sei que não foi preconceito. Ao mesmo tempo que qualquer um tem direito de não concordar com as brincadeiras, mas nunca de distorcê-las. Acredito que um fato inteiro diga tudo aquilo que deva ser dito. Partes dele contam só isso, só partes.

Já passei por preconceitos verbais, de olhares, de exclusões, de inúmeras maneiras. Mas não o aceitei para mim quando soube que não me cabia, como sempre aprendi. Nem procurei vê-lo onde ele nunca existiu. Não o defendo jamais.


É por isso que espero que encarem este dia de Teleton como um abraço. Fica retido entre os braços entrelaçados aquilo que é bom e genuíno de ambas as partes. O coração recebe apenas aquilo que lhe faz bem, que lhe sorri. O Teleton é um abraço feito de mil braços que trabalham, que apoiam, que consolam, que apertam para atenuar as dores. O Teleton é feito de braços que seguram microfones e de braços que gesticulam. É feito de braços que dão colo e afeto, mesmo que causem estranheza e medo ao primeiro olhar. O Teleton é feito do principal ingrediente de um abraço: o amor. Deste que é de verdade, puro e livre das maldades que lhe impõem.

Larissa Mariano

Um comentário:

  1. Demais...!! O preconceito vem daquele que querem enxergar...
    E as vezes as pessoa tem o "hábito" de querer enxergar demais...

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