Sala de Estar: Nando Reis

Fotos: Bruno Trindade Ruiz / Facebook Nando Reis Oficial

Não Vou Me Adaptar by Nando Reis on Grooveshark

No sábado, fui assistir a mais um show do Nando no SESC Pompeia, em São Paulo. A proposta do projeto do qual Nando participa, é de fazer um show intimista, como se estivesse mesmo em sua "Sala de Estar", daí o nome.

Me encantei pelo show. Por admiração ao artista que se mostrou sempre humano e "sujeito imperfeito", como ele mesmo diz. É deste show que venho falar aqui hoje no Caderno de Poeta, trazendo novo ritmo de inspirações, sentidos e sentimentos.

Sala de Estar


Sala de estar. Onde se está, onde se deve ficar, onde se deve ser o que se é. Estar é permanecer, é escolher ficar. Escolher o seu lugar no mundo, colocar-se por inteiro dentro de um espaço. Escolhi aquele ingresso porque esperei um show intimista, próximo de quem o assistia. Escolhi porque eu imaginava o que iria encontrar.

E não foi como eu imaginei, foi mais. Ali, meus primeiros sentimentos vieram formatados como lembranças que eu tinha. Já assisti a dois shows de Nando antes do projeto lançado pelo Sesc Pompeia: um voz e violão e um com os Infernais. No segundo, tive a maravilhosa oportunidade de conhecê-lo no camarim. 


Genuíno, simpático, verdadeiro, mais ainda que isso, transparente. Ganhei um “parabéns a você” do cara que eu cresci ouvindo na sala de estar, nas minhas “estadas” particulares, sentada e brincando de sonhar ser gente grande. Das poucas palavras que trocamos eu sabia que, se tivesse oportunidade, ficaria por horas conversando com ele, abrindo-me ao novo e aos inesperados que me pareceram já tão íntimos.

Realizo minha expectativa na conversa que ele inicia sentado ali no sofá, de chinelos e acompanhado do violão, da vitrola, dos vinis e das flores, em cima do palco que é sua casa. É como um lar interior. Sinto que ele fala diretamente a mim, embora o show seja para cada um de todos nós. Era quase como olhar nos olhos sem ver, como estar perto sem tocar. Era fechar os olhos e sentir. 

Tenho essa mania. Quando uma melodia me envolve demais, escuto de olhos fechados e me deixo dançar intimamente. Cada acorde de Nando era apaixonado no que fazia. Era dedicado e decidido. Era inspirador ver “Patches” transformando-se em “Marvin, a vida é pra valer / eu fiz o meu melhor / e o seu destino eu sei de cor”. Mágico ver como Waiting in Vain, um reggae de Bob Marley, dá o tom para nos apaixonarmos sem volta pelo icônico All Star azul que pisa em Laranjeiras. 

Nando parece o “velho amigo seu” naquele palco. Conversa, conta suas histórias e vai colocando suas músicas e seus amores em seus respectivos espaços, que podem ser perfeitamente sentidos. Traz a experiência de pai com Espatódea (feita para a quarta filha, Zoé) mesclada à própria infância de Beatles, quando se lembra da primeira experiência com Ob-la-di Ob-la-da e traz, do mesmo “White Album”, Dear Prudence. 
Fala de mares, de Ilha do Mar Virado e de Urca. Fala de Ventos Noturnos do Verão, quentes como aqueles que nos acolhem quando perto da boa música, da cultura. Quem se levanta, não fica. Sai dali incompleto, não esteve. Nunca chegou. Quem não se atreve a virar o disco, sempre desconhece o lado B. E dá seus passos assim, vazios e frios, de novo em direção à porta. Como quem senta no sofá da sala e “zapeia” os canais no anseio de encontrar-se em nada: apenas para justificar o desconforto interior. 

Larissa Mariano

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