Pequeno silêncio



Abriu os olhos. Descobriu que gosto a vida tinha. Era doce, mas difícil consumir sem um pouco de cautela. Não passava sorrateira, silenciosa. A vida gritava, apesar de falar por sussurros.

Desde tão cedo, essa vida criança ensinou a sorrir muito e chorar pouco. Ensinou que, crescendo, não ia se lembrar das dores. Desde tão cedo, a vida ensinou-lhe quão importante era pegá-la pela mão e prosseguir.

Ares rareados, corações silenciosos, mentes estáticas por algum tempo - o narrador de seus contos era o silêncio.

Viver lhe era privilégio concedido. Sorte infinita que teve. Foi criança de ralar os joelhos, de vestir-se como em contos de fadas e de valsar rodopiando os desafios como quem continua a colher rosas por seu perfume, consciente do perigo de ferir-se aos espinhos.

Foi criança de ouvir melodias silenciosamente e aprender poesia dos lábios de quem lhe era próximo. Trocou seus versos pelos primeiros passos tardios e, ao menos buscou, sorrisos onde lhe doíam os pês da longa caminhada.

Criança qualquer que foi, chorou. Deu-se às lágrimas quando foi longe dos que queria bem. Não foi forte o tempo todo e precisou que alguém lhe dissesse que a garotinha ainda estava ali, serelepe a segurar-lhe a mão: vida, teimosa vida.

Felicitou-se em aprender as sensações de gente grande. Não se elevou aos saltos finos, nem cresceu quando foi deixando de ser menor. Esticou um pouquinho do coração para fazer caber tantas novas experiências.

Tamanho não tinha, mas passou a achar bom. Abraços faziam sentir os compassos dos corações que passavam pela vida. Caminham, encontram e às vezes fazem os meneios de despedida. Não vão - ela cresceu para caber cada um.

Tratou de entalhar um sorriso maior, um coração com um pouquinho mais de espaço. Não cabendo, escreveu-os na eternidade que pretendia ter com suas palavras. E, quando grande que lhe chamaram pela primeira vez, preferiu pequenez: era na criança mais crescida, na pequena idade adulta que descobrira que a tua infância lhe fez amar.

Amava. Cada segundo de sua oportunidade-existência. O que a vida lhe deu aos sussurros, segredou de volta: “Obrigada. Mãos, que traduzem a alma. E pés - que, de uns passos de criança, ensinaram às minhas asas por onde meu coração, pesando a leveza do amor, já havia aprendido a planar”.

Larissa Mariano

Um comentário:

  1. Vida de criança...que ficam as lembranças..as alegrias e as vivencias que nos impulsionam para a vida adulta

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