Carta aberta à felicidade

Foto: Arquivo Pessoal / Marina Sampaio Fotografia

E então, minha querida, você chegou. Fui buscá-la nesse aeroporto de decolagens e pousos, de asas que se abrem ou resolvem se aquietar todos os dias. Fui buscá-la, mas não fui "em busca de". Chegou você com tuas malas pesadas de autonomia, de vida própria, de luz íntima. Chegou, tocou a campainha e fez do som dos teus passos decididos a melodia mais doce da minha vida.

Veio com aquele barulho que faz um salto agulha no piso. Estrondoso, mas um pouco acolhedor quando faz parte da rotina. Girou a chave, fechou a porta e largou a bagagem na entrada como quem se alivia do peso que, ainda assim, foi bom de ter sido carregado porque a trouxe ao seu lar.

Sorriu - como quem é feliz, que ironia. Ligou naquela música que disse trazer paz. Paz. Era isso que você queria, não era? Apesar de ser sentida com tanta intensidade, tão intensamente. A melodia envolve, traz paz sim, mas rouba teu sorriso para pousá-lo no meu rosto como quem visualiza as coisas mais lindas que se pode sentir nessa existência.

Fica um pouco? Você pode abrir os armários, claro. Já sabe onde fica cada coisa. Aquece uma água, se deixa ir ficando para um café – não esquece de adoçar com as colheradas do amor que fica naquele potinho. Ah, você também sabe onde é. Trouxe mais um pouco pra mim? Obrigada, gratidão eterna, infinita, imensa mesmo.

Se sabes onde fica, sabes que guardo em potinhos apenas porque é especial. Mas abro para adoçar os dias, cada minuto que não posso viver sem ter a certeza de que realmente sua chegada se faz verdadeira por aqui.

Então fala – ou cala, também – só escolhe e fica. Decora cada dia que não tenha um fim e me faça acreditar que os próximos serão sempre melhores. Sempre em crescimento. E, a crescer, deixa que eu a dor, se assim tiver de ser. Foi assim que começou essa conversa, lembra? O coração tem que sentir, tem que mergulhar, tem que ser. E sê, minha querida, sê em mim a explosão de tudo aquilo que eu necessite para ver-te, menina feliz.

Menina tão mulher, que vai desenvolvendo aquilo que também desenvolvo. Que traz as tristezas para me mostrar que o melhor vem à frente, que o melhor cuida e quer chegar, dá seu jeito de driblar qualquer antes que haja. Que traz consigo as pausas para que as continuidades sejam sempre infindáveis, profundas e de todo sempre que se fizer dito. Que é, por ser de alma.

E ali se borda, menina. Se costura e se deixa. Se esconde quando for preciso, quando outras sensações vierem invadir. Mas não tenha medo. Certifique-se de que seu sorriso muda. E que, mesmo muda, põe-se a falar pelos cotovelos com esse mundo que não ouve ninguém.

Não ouve. Mas houve, tenha certeza. E fica, menina. Enquanto houver, nós seremos. Seremos felizes. Seremos raízes, que embora se entortem e se adaptem e cresçam mundo afora, não vão embora. Aqui ficam, aqui são. Aqui ouvem a melhor coisa que é de ouvir: coração.

Larissa Mariano

2 comentários:

  1. Um dos textos mais profundos que ja li...Um texto de reflexao diaria...
    A vida é assim..de pausas...para que sigamos em frente com mais força..

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